“Acabei de ver uma criança de uns dez ou doze anos com aquele casaco cinza que você usava, Roberto.
Eu por um momento, saindo do banheiro, tive a sensação de que fosse você. Veio junto o mesmo frio na barriga que vinha na época que estávamos brigados e tudo o que eu queria era ter coragem para interromper sua conversa mais uma vez e tentar de novo, no meio de todas aquelas pessoas, pedir desculpas e ser desculpada.
De todo o meu coração, pensei que eu estivesse bem, o sentimento mais pesado que sentia sobre você era saudade, até agora. Voltou toda aquela agonia daquelas semanas em que podiam comparar-me com alguém apaixonado que havia perdido o grande amor da vida, porque era assim que eu aparentava, sem base, sem motivação.
Incrível como a vida nos ensina a lidar com os níveis de reciprocidades.
Você era só um amigo, de todos, o mais especial amigo e eu temia que tivesse perdido esse único vínculo. Foram algumas das piores sememas da minha vida, Roberto.
Eu sei o quanto você odeia que eu te chame de Roberto, sei o quanto isso te lembra um tom bravo, eu sei o quanto você sente saudade da gente na oitava série, mas nada se compara com a tristeza que me finca o estômago nos dias em que crianças de dez ou doze anos vêm pra aula vestidas com aquele mesmo casaco cinza. A tristeza de reviver aqueles dias frios e não me lembrar qual foi a última vez que eu revivi um dia de ouro ao seu lado.
Pequeno, na minha cabeça conturbada, você continua tão pequeno quanto antes. O mesmo Robertinho da oitava série com piadas sem graça e um vocabulário chulo; de uma cultura admirável e uma amizade insubstituível. Cujo espaço, de fato, não foi preenchido por ninguém desde aquele 2008.
Amizades vêm em níveis e algumas memórias por conta própria reservam cadeiras para pessoas irresgatáveis.
Lembrar daqueles dias me fez rir de novo, mas foi um riso breve e seco. Agora você não está aqui e seu casaco está. Depois de anos o sentimento de fracasso preenche essas linhas e me ensina que não importa o tanto que você insista neles, alguns vocativos simplesmente não são pra ser. Não os uso mais.
Anjo velho uma ova, alguns simplesmente morrem.”
Sim. Eu costumava sonhar. Houve um tempo em que eu retirava as nuvens do céu e era capaz de pintá-lo de azul. Eu costumava sorrir das mazelas da vida e abraçar as dores até que elas se transformassem em ensinamentos. Fazia da tristeza minha inimiga e lutava bravamente contra ela. Fechava a porta sempre que sentia que ela estava pra chegar. Guardava sorrisos e boas lembranças, lia bons livros e frequentava os melhores cafés da cidade. Sim. Eu costumava ser feliz, embora talvez você não acredite. Eu fui feliz até setembro de 1992. Mas o tempo, o tempo é carrasco de todo o tipo de amor. Inclusive do meu amor à vida.
Seu avô, Mabel, apareceu pra mim em uma quinta-feira. Foi até a biblioteca e procurava por um volume de Machado de Assis que eu logo o ajudei a encontrar. Malandro que era, sorriu e disse que eu tinha olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Me ganhou com essas palavras e depois disso eu não podia recusar ele nem um café, tampouco meu coração.
Fomos felizes, Mabel. Costumávamos sair aos domingos e ir a todos os bailes da cidade. Mesmo na época da recessão, ele tinha aquela coisa que me fazia rir apesar do desemprego e do pouco pão. E quando seu pai nasceu, ele foi o homem mais feliz do mundo.
Sim. Eu costumava ser feliz.
Mas daí veio o tempo, filha. E o tempo leva tudo. Levou a saúde do seu avô em uns poucos meses e em no início de setembro ele foi embora. Uma vez eu disse que nunca ia abandoná-lo. E quando ele se foi, eu fui com ele.
“Você já teve um sonho, vovó?”
(Source: portuaria)
É me sentir tocada, é deixar que todas essas coisas me entrem, me invadam, me pacifiquem, é permitir que a música me habite, que as palavras me abracem, que a madrugada me encaixe. É não temer a inquietação e não me conter. É chorar e não abrir mão de sentir. De ser devorada. De ser consumida.
(Source: asasnosolhos, via residuo-mental)
Tua falta, que compõe os meus versos tão sinceros, te leva com o vento que transborda minhas falas, entre saudade já es de casa, sirva-se, conte-me por onde tens andado, quem tens machucado , tua falta me faz lembrar que a saudade existe e assim me pego a pensar que sentir saudade ás vezes é o que há, o que há de bom para te lembrar.
Nordestiana
(Source: nordestiana, via relatosdeumameretriz)
Aquele moreno
tão branco quanto eu
Diz ter perdido o medo
De amar,
De se entregar
Ou se declarar muito cedo
Das histórias de amor
A rosa e o beija-flor
Compõem o mais belo enredo
Hoje eu peço por favor
Que meu floricultor
Me conte um segredo
Se em meu dissabor
Tente me recompor
Mesmo quando me excedo
Eu te amo, domador
De toda a fera que eu sou
Tu és meu único acerto
Obrigada por me abrigar
Por me domar, me proteger
E por amar cada um dos meus erros.
Luísa Mendonça
De malvado ele não tinha nada. De respeitoso também não. O menino que ria da desgraça de uma velha caduca na calcada da praça.
O menino.
Seis anos de liberdade, uma vida toda pela frente;
E só.
De cada mil e um ramos que nascem, uma árvore sobrevive às pragas da terra. De cada mil e um ramos que nascem, um não se arrepela. De cada mil e um ramos que nascem, aquele que não haure, é uma velha.
Velha feia, corcunda e desdentada;
Velha sozinha, cansada e enrugada;
Velha.
No peito, um coração que bate. Em suas rugas, três filhos bem educados e algumas duzias de viagens. Em suas costas, o peso do tempo que não passa. No sorriso, a falta de graça: seus netos, bisnetos e sobrinhos, todos como o garoto da praça.
Da solidão, um abandono e uma morte. Seu cansaço era da falta de sorte, da falta de norte. Cansada ainda da hipocrisia, cansada do clichê da poesia.
Não, a velha sentia ódio. Ódio e repulsa do clichê. E de todos os julgamentos iníquos, a feiura. A feiura dos olhos de quem vê.
Meu amor, eu quero um samba. Um samba para tocar devagarinho enquanto eu beijo teu pescoço. Um samba para falar por nós, quando as nossas bocas estiverem ocupadas e esquecermos todas as palavras de uma só vez – um bom samba sempre falará do nosso amor – é o que eu ouvi falar sobre as pessoas que se amam.
Quero a melodia dos teus gemidos e o calor do teu corpo na letra de um samba. Seu aroma eu quero num samba. Sua manha eu quero num samba. Seu olhar eu coloco num samba, menina, porque eu quero um samba do tamanho dos teus encantos. E eu, poeta desiludido, rodeado por desenganos – aprendi a acreditar no amor como quem aprende a compor um samba.
Um samba assim: tão pequenino. E molhado de chuva. Meu amor, eu quero um samba para tirar sua blusa acinzentada e beijar seu corpo inteiro numa madrugada de outono. Quero um samba para excitá-la e passear meus dedos pelo teu corpo branco e reluzente como as pregas de um pandeiro. Eu quero um circo. Teu corpo é um circo. Um circo que toca samba. Meu samba enredo predileto.
Eu quero a vida, a tua respiração ofegante, teu palpitar nervoso, inquieto. Um gemido incoerente. Eu quero a tua carne quente, latejante, gritante ao calor do meu toque em seu corpo numa madrugada de outono qualquer. Mulher, eu quero um samba que nos aproxime para sempre. Que não nos distancie. Teus lábios beijando meu pescoço. Tua boca suspirando ao meu ouvido. “Eu te amo, eu te amo.” É o nome do samba que eu fiz.
Por pensar: eu quero um samba. Um samba nosso. Feito esses encantos, que como teus olhos, a vida, às vezes me traz. E deixa um tempo comigo. Depois leva embora.
Heitor Henrique.
(Source: objetomediocre, via jeitomansoeteu)
É um fato: Ler excessivamente, após a inércia, dá vontade de escrever (confusa e excessivamente).
Num momento x da vida, ao acaso, me vi estagnada na erudição. No momento x + 1 a agonia veio, junto com uma necessidade mórbida de produzir, escrever, estudar, funcionar, render alguma poeirinha de nada de poesia. Gradual e inevitavelmente todas as prosas e versos se voltaram para mim como uma súplica de leitura, um ar de abandono e um cheirinho de guardado. Há quantas semanas não lia uma boa prosa (…) não sei dizer.
Pois li, uma, duas, três, centenas de boas prosas e um punhado de outras terríveis também. Mas li. O cheiro ainda está em meus dedos. Nowhere Man também não desgruda da minha cabeça. É aquela velha história da fundamental trilha sonora.
Habituais seriam aquelas reflexões subjetivas de mais para despertar qualquer interesse no vulgo ‘público’ (pessoal alfabetizado). A reflexão de hoje não interessa nem a mim mesma. “Melodramaticidade” em tempo real.
Boa noite, Senhoras e Senhores. Na tarde de hoje, quem vos fala leu simplesmente duas mil escrituras e meia. Dentre elas o Manifesto Comunista, algumas fórmulas de física e umas vinte ou trinta crônicas da nossa querida Martha Medeiros.
Calma não é a palavra que traduziria a sensação da overdose de entreterimento, definitivamente. “Fleuma”, ou talvez “paz”. A minha zotiantrpofobia foi embora em um segundo, em menos que isso. “Zotiantropofobia” é o neologismo mais adequado para o sentimento que pulsou nas minhas veias empoeiradas. ”Aversão e medo mórbido irracional ao zotismo humano.” Pus-me a escrever quando constatei que também sou um ser humano e portanto, sou vulnerável.
Aquela sensação de que todo o esforço não valeria nada veio enquanto às linhas se enchiam, como se depois, bem depois, nenhuma singular alma de todo aquele pessoal alfabetizado teria qualquer interesse em ler todo o acúmulo de literaturas disformes.
Mas esse é o segundo triste fato:
Eu tenho, porque tenho de ser subjetiva.
Que coisa mais perturbadora. Se não for assim não da certo, não engrena, não funciona. As palavras simplesmente não têm nexo quando no sentido literal, as ideias não fluem, não prendem. O texto túrbido é infelizmente a consequência da opção pelo fluxo, da opção teimosa pelo sentido figurado.
Eis então que redijo, causando tanto interesse quanto aquele que leva alguém, em alguma parte do globo terrestre, encontrar o significado ominoso da palavra “galacticocentricidade”.
Pois eu hei de descobrir, em alguma noite desocupada como essa. Pois hoje eu me limitei aos excessos, resultando também em excessos. Pois eu inseri em todos os meus parágrafos excesso de desequilíbrio. Estou excessivamente descontente, por ter estado excessivamente estagnada.
Luísa Mendonça